TEOLOGIA EM FOCO

domingo, 9 de outubro de 2016

JUSTIFICADOS PELA FÉ (Ef 2.8-9)


Uma análise detida do conceito bíblico de salvação revela o fato de que os pecadores foram, sob ambas as dispensações e em todos os tempos, sempre salvos pela graça (Sl 6:4; Is 55:1-4; Ef 2:8 e 9), justificados pela fé (Gn 15:6; Hb 2:4; Rm 5:1) e julgados pelas obras (Dt 28; Mt 5:16-21; 25:31-46; Ap 20:11-13). Isso significa, em primeiro lugar, que o Antigo Testamento não ensina um caminho legalista de salvação. É interessante notarmos que, mesmo no concerto do Sinai (ver Êx 19:24), Deus primeiro salvou o Seu povo da escravidão do Egito (Êx 20.1 e 2) para depois proclamar-lhe o Decálogo e exigir a obediência (Êx 20:3-17). Por semelhante modo, o Deuteronômio “não ensina”, de acordo com Gerhard von Rad, “um caminho legalista”, pois nele os imperativos da obediência requerida são sempre uma resposta de Israel aos indicativos da salvação anteriormente provida pelo Senhor. Além disso, todos os sacrifícios oferecidos sob a antiga dispensação prefiguravam em símbolos a suprema revelação da graça salvífica de Deus na morte de Cristo como “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1:29).

“Em nossos dias, a verdade bíblica da justificação pela é desconhecida ou mal compreendida por muitos cristão. No entanto, ela foi a questão central levantada pela Reforma Protestante do século 16. Assim como o “sola Scriptura” foi denominado o “princípio formal” da Reforma, porque a Bíblia é a fonte de onde procedem todas as autênticas doutrinas cristãs, a justificação mediante a é o seu “princípio material”, porque envolve a própria substância ou essência do que se deve crer para a salvação” (Matos).

É um termo legal usando em tribunais seculares de direito penal. Ser “justificado” num tribunal significa ser “absolvido, declarado inocente, declarado não culpado”.

Na Bíblia, isto tem um significado ainda maior. Significa ser declarado justo, ter posição de retidão diante de Deus. Em outras palavras, é como se eu nunca tivesse pecado.

“Quanto está longe o oriente do ocidente, assim afastou de nós as nossas transgressões” (Sl 103.12). Deus nos mostra que os nossos Pecados estão cobertos, perdoados e esquecidos. É isto o que “... o SENHOR, o Juiz...” (Jz 11.27) decreta para qualquer pecador que satisfaça as Suas condições para ser justificado.

Em Hebreu 10.29, o escritor faz-se referência ao “Espírito de Graça”. Todo evangelho é um Evangelho de Graça. Deus amou o mundo de tal maneira, que deu Seu Filho sem reservas. O Senhor Jesus oferece Seus dons simplesmente por Graça (Ef 4.11).

De perfeito acordo com o Pai e o Filho, o Espírito Santo apresenta os tesouros celestiais em qualidade de dons gratuitos para o homem, trazendo a este mundo Espírito único do Pai e de Seu Filho e a proposta da Graça. Ele recusa tratar com aqueles que querem negociar Suas bênçãos. Jamais aceitará retribuição por Seu trabalho. Não permitirá jamais que se lhe atribuam méritos em retribuição por Seus dons. A graça é a lei fundamental do Seu ministério; o Espírito é especialmente o “Espírito de Graça” (Zc 12.10).

“Sendo justificados gratuitamente, por Sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus. A quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impune os pecados anteriormente cometidos. Tendo em vista a manifestação da Sua justiça no tempo presente, para Ele mesmo ser justo e justificador daquele que tem fé em Jesus. Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei” (Rm 3.24-28).

Através da morte de Cristo, Deus remove os pecados do Seu povo, não simbolicamente como nos rituais em Lv 16. Jesus Cristo ocupa uma posição única como representante de Deus com o homem e do homem com Deus. Aqui prevalece a justiça de Deus, e não os esforços do homem.

Jesus justificou perante o Pai a nossa culpa. Pagou o preço do nosso resgate e justificou pelo seu sangue. “Sendo justificado gratuitamente pela sua graça”. A Bíblia diz em 1ª Pe 1.18-19 “Sabendo que não foi com coisa corruptível, como prata ou ouro, que foste resgatado da vossa vã maneira de viver que por tradição recebeste dos vossos pais, mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado”. O preço pago para nos libertar e justificar, Jesus pagou em nosso resgate, ao derramar o seu sangue e dar sua vida por nós. Não precisa o homem fazer penitencia, acender vela, andar de joelhos ou coisa parecida. A Bíblia diz “Todas as nossas justiças são como trapo de imundícia” (Is 64.6). Só precisamos aceitar e crer no sacrifício de Jesus na cruz do Calvário, e obedecer a Sua Palavra, pois Jesus já pagou o porte para vida Eterna. Esta vida está a tua disposição é somente aceitar.

Quem nos justifica é Cristo. Se tivermos fé no seu sangue, Deus vê, ao olhar para nós, não as leis violadas em nosso coração, mas a propiciação através do sangue de Seu Filho. O sangue de Jesus se sobrepõe aos nossos pecados. Satisfeita a justiça de Deus, somos justificados mediante o divino sangue expiador, como se não tivéssemos cometido nenhum pecado.

Podemos então cantar como o salmista. “Não nos trata segundo os nossos pecados, nem nos retribui consoante as nossas iniquidades. Pois quanto o céu se alteia acima da terra, assim é grande a sua misericórdia para com os que o temem. Quanto dista o Oriente do Ocidente, assim afasta de nós as nossas transgressões” (Sl 103.10-12).

Ser justificado concernente a salvação, significa ser declarado justo, livre de pecados cometidos. Nossas tentativas de esconder ou cobrir nossos próprios pecados resultam tão inúteis como às folhas de uma figueira com que Adão e Eva tentaram cobrir sua nudez. Vale a pena lembrar que o Senhor proporcionou a Adão e Eva vestes de peles com que se cobrirem depois que eles lhe confessaram o pecado. Mais uma vez se nota o derramamento de sangue para satisfazer a santidade de Deus, violentada que fora pelo pecado. Resultam infrutíferas nossas tentativas de desculpar-nos ou esconder nossos pecados, pois estão patentes aos olhos de Deus. “Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós” (1ª Jo 1.8).

O coração vivo do evangelho está na doutrina da justificação pela graça apenas por meio da fé. Dentre os presentes de Deus ao homem, nenhum se compara com as boas novas de que Deus, gratuitamente, justifica pecadores que aceitam seu perdão. Essa verdade promove não somente o alicerce seguro da salvação, mas o próprio incentivo á santificação.

Uma posição intermediaria, comum entre alguns cristãos que abraçam um evangelho cheio de regras, não visualiza a doutrina da justificação como um dom inalienável de Deus.

No sermão do Monte, Jesus julga toda a justiça humana ou auto-negação como inaceitável para Deus. A pobreza de espírito que ele elogia (Mt 5.3), é uma condição interna necessária para qualquer sentimento constrangedor da carência da graça justificadora de Deus. Da mesma forma que “o zelo dos fariseus para alcançar padrões elevados não produziu o tipo de vida que o nosso senhor ordenará” (Mt 23.13-36), também uma forma correta de uma pessoa em pecado encarar a sua franqueza e miséria não produzirá orgulho em forma de fazer a vontade de Deus.

A fé e lealdade á pessoa de Jesus é o alvo da auto-mortificação. Sem fé, negando-se a si mesmo é um dos atos juntamente com o dízimo, o jejum e a esmola que são declarados hipocrisia pelo Senhor (Lc 18.12).

O homem precisa reagir com fé. Ele precisa responder á ação amorosa de Deus ou ficar em rebelião perpetua com seu Criador. Mas qualquer salvação que não é trabalhada com temor e tremor (Fl 2.12) é uma decepção.

A justificação, portanto, é inspiração de amor. A fé é o meio para recebê-la. A justificação precisa ser recebida pela fé. Assim também, somente pela fé, vive um cristão (Cl 2.6-7; Gl. 3.2-9). A união com Cristo pela fé inicia com aqueles que creem no domínio do Espírito, onde a verdadeira liberdade reina (2ª Co 3.17). É o espírito que ilumina a lei à luz de Cristo, desse modo, transformando a perversão do legalismo em liberdade genuína. Tornando-se membros do corpo de Cristo, aos crentes é concedida a possibilidade de obedecer às ordens do Mestre.

O legalismo exige que seus seguidores obedeçam a um código externo, mas o perfeccionismo é baseado em uma compreensão deturpada do significado prático da justificação.
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De forma realística, a justificação pela fé transforma muito mais do que a condição de culpado do crente diante de Deus. Ela o ressuscitou da morte com Cristo para um compromisso contínuo de fé com o Senhor, que orienta suas decisões pelo Espírito Santo. Pela virtude deste relacionamento, Paulo escapara das limitações da lei para estar sob as exigências legais de Cristo (1ª Co 9.21).

Mas, se está faltando aquele relacionamento de fé com Cristo, a lei não somente expõe o pecado, ela também o instiga (Rm 7.7-7), induzindo ao orgulho humano e á auto-confiança, social, e individual. “Instinto rebeldes, latentes ou moribundos na alma são levantados pelo “não” mandamentos”. Não menos trágico, na compreensão de Paulo, é a confiança judaica na suposta justiça nacional, pois esta omite Cristo, o centro, e estimula a glorificação da realização humana.

Paulo explica sua doutrina, confessando sua confiança pré-cristã. Ele cumpria completamente suas obrigações perante Deus, perante sua consciência e perante seu povo com zelo extraordinário pelas “obras da lei”. Após o seu encontro transformador com Cristo no caminho de Damasco, ele renunciou a sua maneira anterior para exclusivamente conhecer e obedecer a Cristo (Fp 3.7-10). A disciplina soberba produzida pelo falso empenho e orgulho como um fariseu superior foi desmascarado por aquilo que era o refinado pecado da auto-justificação, tão odiosa a Deus e, conseqüentemente, abandonada. A transformação fora tão radical que Paulo, o perseguido, tornou-se Paulo, o evangelista, autor de 1ª Co 13. As coisas velhas passaram, abrindo caminho para a realidade da “nova criação” (2ª Co 5.17). Ele destingiu cuidadosamente entre a velha “letra” e o espírito da lei (2ª Co 3.6). O Cristo em nós é certamente a “esperança da glória” (Cl 1.27). Acima da imputação de sua justiça a pecadores, Deus tem derramado seu Espírito sobre todos aqueles que verdadeiramente creem em Cristo (Rm 8.9) para que eles se tornem como Cristo (Rm 8.29).

I. A JUSTIÇA DE DEUS

“E ser achado nele, não tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé” (Filipenses 3.9).

“A palavra justiça [no gr. Epieikes e Epieikeia]. Epieikeia, é aquilo que é justo e, ás vezes aquilo que é melhor do que a justiça. É aquilo que corrige a lei quando a lei é deficiente por causa do seu caráter geral. O homem que epieikes sabe que há ocasião quando uma coisa pode estar totalmente justificada do ponto de vista legal, porém completamente errada do ponto de vista moral. O homem que é epieikes sabe quando deve relaxar a lei sob a compulsão de uma força que é mais sublime e seria inquestionável legal, e que de modo igualmente inquestionável seria completamente anti-cristã.

O que há de básico e fundamental na justiça é que volta-se para Deus. Se Deus exigisse Seus direitos, se Deus aplicasse a nós somente os padrões rígidos da lei, onde estaríamos? Deus é o exemplo supremo de alguém que é justiça e que trata os outros com justiça.


Vivemos hoje numa sociedade onde os homens insistem em exigir seus direitos legais, onde somente fazem aquilo que são obrigados a fazer e sempre desejam obrigar os outros a fazerem tudo quanto puderem. Repetidas vezes temos visto congregações dilaceradas pelas contendas e reduzidas á infelicidade trágica porque homens e mulheres, comissões e convenções, insistiram na letra da lei. Quando o conselho diretor de uma congregação é convocado com o livro das leis da igreja em posição de destaque na mesa do presidente, os problemas nunca estão longe. Um novo mundo surgiria na sociedade e na igreja se os homens deixassem de se basear suas ações na lei e nos direitos legais, e orassem a Deus a fim de que Ele lhes desse epiekeia.

Pr. Elias Ribas