TEOLOGIA EM FOCO: Novembro 2018

TEOLOGIA EM FOCO

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

O PERIGO DA INDIFERENÇA ESPIRITUAL



INTRODUÇÃO. Nesta lição veremos o contexto e o objetivo que o Mestre amado contou esta parábola; pontuaremos seus personagens e quem eles representam; analisaremos qual o contraste entre os dois filhos; e por fim, estudaremos o que Jesus quis ensinar com esta parábola.

I. UMA PARÁBOLA DISTINTA
Em Mateus 21.28-32 encontramos a “parábola dos dois filhos”. Esta parábola possui as seguintes características:
A. Ela consta somente no evangelho conforme Mateus.
B. Têm apenas três versículos.
C. Foi pronunciada na última visita de Cristo a Jerusalém, antes de Sua morte.
D. Tem o intuito de enfatizar que Deus chama a todos os homens para a salvação, no entanto, cabe aos homens aceitarem tal chamado (Mt 21.32). Vejamos algumas outras informações sobre esta parábola:

1. Contexto. Em Mateus 21 encontramos o registro da entrada triunfal de Jesus sobre um jumentinho, na famosa cidade de Jerusalém, para cumprir o que dele estava escrito (Zc 9.9; Mt 21.4,5). A multidão louvou ao Mestre trazendo consigo ramos de árvores que espalhavam pelo chão junto com as suas próprias vestes e diziam: “Hosana ao Filho de Davi; bendito o que vem em nome do Senhor. Hosana nas alturas!” (Mt 21.9-b). Esta parábola está estreitamente conectada com o relato imediatamente precedente em relação a atitude das autoridades para com João Batista (Mt 21.23-27). Jesus questionou porque eles não reagiram a mensagem de arrependimento pregada pelo profeta (Mt 21.32).

2. Objetivo. O principal objetivo da parábola é mostrar como os publicanos e as meretrizes, que não professavam crê no Messias e do Seu reino, ainda assim aceitavam a doutrina e se sujeitavam à disciplina de João Batista, o precursor de Jesus (Mt 3.5,6), ao passo que os sacerdotes e os anciãos, que estavam cheios de expectativas do Messias, e pareciam muito dispostos a estar de acordo com o que Ele determinava, desprezaram João Batista, e foram contrários aos desígnios da missão de Jesus (Mt 3.7-10; 21.32; Mc 1.5). A parábola tem um outro alcance; os gentios, que eram desobedientes, tendo sido, por muito tempo, filhos da ira (Ef 2.3); porém, quando o Evangelho lhes foi pregado, eles se tornaram obedientes à fé, enquanto os judeus, que diziam: “eu vou, Senhor”, faziam boas promessas (Êx 24.7; Js 24.24), mas não iam; eles somente “lisonjeavam a Deus com os seus lábios” (Sl 78.36,37).

II. OS PERSONAGENS DA PARÁBOLA

1. O Pai (Mt 21.28). O pai desta parábola é uma representação perfeita da pessoa de Deus como nosso amado Pai (Sl 103.13; Ef 1.5; Gl 4.4,5; Rm 8.15-17; Jo 1.12; 2ª Co 6. 18; Rm 8.15; 23; Gl 4.6; Hb 12.6; Hb 6.12; 1ª Pe 1.3,4; Hb 1.14). O status de filhos traz-nos privilégios como:

1.1. Tratar a Deus como Pai nas nossas orações: “Pai nosso, que estás nos céus” (Mt 6.9).

1.2. Ter o testemunho do Espírito acerca da nossa salvação, o qual clama “Aba, Pai” (Rm 8.15,16).

1.3. Sermos amados por ele: “Vede quão grande amor nos tem concedido o Pai: que fôssemos chamados filhos de Deus” (1ª Jo 3.1); “Amados, agora somos filhos de Deus…” (1ª Jo 3.2).

2. O primeiro filho (Mt 21.28,29). Os publicanos e as meretrizes de quem se esperava pouca religiosidade são representados pelo primeiro filho na parábola (Mt 21.31,32). Eles não prometiam nenhum bem, e aqueles que os conheciam não esperavam deles nada de bom; ainda assim, muitos deles foram transformados: “Mas, depois, arrependendo-se, foi” (Mt 21.29-b ver ainda Lc 7.29,30). Estes impuros representavam também o mundo gentílico; pois, os judeus, em geral, classificavam os publicanos junto com os pagãos; e os pagãos eram representados, pelos judeus, como meretrizes, e homens nascidos de prostituição (Jo 8.41).

3. O segundo filho (Mt 21.30). O segundo filho é representado por muitos da nação judaica quando ao ser proclamada a Lei no monte Sinai, pela voz de Deus, se comprometeu a obedecer e disseram: “Tudo o que o Senhor tem falado faremos”, porém
não fizeram (Êx 19.8; 24.3,7; Dt 5.27). Eles faziam uma profissão especial da religião; ainda assim, quando o reino do Messias lhes foi trazido, pelo batismo de João, eles o desprezaram (Mt 3.7-10), deram-lhe as costas e lhe rejeitaram (Jo 1.11; Lc 19.14; At 13.46). Por causa do seu orgulho, eles não procuravam seguir a Deus e a Cristo. Por isso, o filho que disse: “Eu vou, senhor”, e não foi, revelou perfeitamente o caráter dos judeus fariseus (Lv 26.41; Dt 10.16; Jr 4.4; 6.10; Ez 44.9; At 7.51; Hb 4.7).

III. CONTRASTES ENTRE OS DOIS FILHOS
É digno de nota, nesse contexto, que esses publicanos e prostitutas arrependidos haviam dito: “não queremos”, mas depois se arrependeram, e então creram. Ao contrário, os líderes religiosos dos judeus, homens considerados como bem familiarizados com a Lei de Deus e que exteriormente se conduziam de uma forma tal como se estivessem dizendo constantemente: “sim, Senhor, fazemos tudo quanto requeres de nós, e faremos tudo quanto queres que façamos”, porém não faziam. Era acerca deles que Jesus declararia: “Dizem sim, e não fazem” (Mt 23.3 ver Êx 19.8; 32.1; Is 29.13). Notemos então alguns aspectos representados por estes dois filhos. Vejamos:

O PRIMEIRO FILHO O SEGUNDO FILHO
- Foi convocado pelo pai para trabalhar (Mt 21.28) Foi convocado pelo pai para trabalhar (Mt 21.30-a).
- Disse ao pai que não ia, mas foi (Mt 21.29) Disse ao pai que ia, mas não foi (Mt 21.30-b)
- Mostrou-se rude, mas foi sincero (Mt 21.29-b) Mostrou-se flexível, mas foi falso (Mt 21.30-b)
- Mostrou arrependimento (Mt 21.29-c) Não mostrou arrependimento (Mt 21.32)

IV. O QUE JESUS QUIS ENSINAR COM ESTA PARÁBOLA

1.  Dizer “não” e viver o “sim” é uma prova de arrependimento (Mt 21.29). Quanto ao primeiro filho as suas ações foram melhores que as suas palavras, e o seu final, melhor que o seu começo. Vemos aqui a feliz mudança de ideia, e da conduta do primeiro filho, depois de pensar um pouco: “Mas, depois, arrependendo-se, foi”. Observemos que há muitas pessoas que no início dizem “não”, são teimosas, e pouco promissoras, mas que posteriormente se arrependem e se corrigem, “e caem em si” (Lc 15.15.17), como diz o provérbio popular: “Antes tarde do que nunca”. Observemos que quando ele se arrependeu, ele foi; este é um “fruto digno de arrependimento” (Mt 3.8). A única evidência do arrependimento da nossa resistência anterior é concordar imediatamente e partir para o contrário; e então, o que passou será perdoado, e tudo ficará bem. Aquele que disse ao seu pai, face a face, que “não faria o que ele lhe pedia”, merecia ser atirado para fora de casa e deserdado; mas o nosso Pai “espera para ter misericórdia”, e, apesar das nossas antigas tolices, se nos arrependermos e nos corrigirmos, Ele irá nos aceitar de uma forma bastante favorável (Pv 28.13). É muito melhor lidar com alguém que, na prática, será melhor que a sua palavra, do que com alguém que não será capaz de cumprir o que prometeu.

2. Dizer “sim” e viver o “não” é uma prova de hipocrisia (Mt 21.30). É impressionante a quantidade de pessoas que dizem “sim” e vive o “não” (Tt 1.16). Existe uma abissal distância entre o discurso e a prática: “Não procedais em conformidade com as suas obras, porque dizem e não praticam” (Mt 23.3). O segundo filho mencionado disse melhor do que fez, prometeu ser melhor do que provou ser; a sua resposta foi boa, mas as suas ações, más. Ele professou uma obediência imediata: “eu vou”; ele não disse: “eu irei daqui a pouco”, mas infelizmente ele ficou apenas na teoria e não partiu para prática. Existem muitos que proferem boas palavras, e fazem boas promessas, que se originam de boas motivações; porém, ficam apenas nisso, não vão mais além. Dizer e fazer são duas coisas diametralmente diferentes e distintas, e há muitos que dizem e nunca fazem o que prometem (Is 29.13; Ez 33.31). Muitos, com a sua boca, até confessam, mas os seus corações vão em outra direção (Mt 15.8; Mc 7.6). A prova de sinceridade não está nas palavras, mas nos atos (Mt 7.21). As palavras não são de valor algum se não forem acompanhadas de atos equivalentes: “Se sabeis essas coisas, bem-aventurados sois se as fizerdes” (Jo 13.17). Existe uma diferença categórica entre arrependimento (2Co 7.9), e remorso como no caso de Judas (Mt 27.3).

3. O “sim” e o “não” é uma prova do nosso caráter. O tempo vai dizer quem é quem e revelará se o que dissemos condiz com o que somos. Às vezes o “não” honesto hoje pode colocar o homem em uma posição de reflexão, de arrependimento e mais tarde gerar mudanças movendo-o a prática de atitudes coerente com o “sim”. O verdadeiro “sim” é aquele marcado pela consciência profunda do pecado, arrependimento e conversão (Mt 21.31-32). Os publicanos e as meretrizes eram os que inicialmente haviam virado as costas para Deus, mas se arrependeram e creram; ao passo que os judeus fariseus que haviam pretensamente crido, no fundo endureceram o coração e rejeitaram a oferta do Evangelho. Intenções precisam ser acompanhadas por ações, pois a fé sem obras é morta (Tg 2.26), e o arrependimento sem frutos não agrada a Deus (Mt 3.8).

4. O “sim” e o “não” é uma questão de livre-arbítrio. Na história, os dois filhos mudaram de ideia, um para pior e outro para melhor. O pecador pode se arrepender e ser perdoado, e o justo pode se desviar e ser condenado (Ez 18.21-24). Por isso, é imprescindível permanecer firmes até ao fim (Hb 3.12-13; 4.11). O chamado do Evangelho, é, na realidade, o mesmo para todos, e nos é transmitido com o mesmo teor. Na parábola, o pai falou a mesma coisa para os dois filhos e sua vontade para os dois foi a mesma. Deus deseja a salvação de todos (1ª Tm 2.3-4). Como cada filho na parábola tomou sua própria decisão, nós decidimos obedecer a Deus ou não. Os dois filhos receberam a mesma oportunidade: “[…] Filho, vai trabalhar […] E, dirigindo-se ao segundo, falou-lhe de igual modo” (Mt 21.28,29). Jesus não lhes disse: “vós não podeis entrar no reino do céu”; porém, mostrou que eles mesmos criavam o obstáculo que lhes embargava a entrada (Mt 23.37-38). A porta ainda estava aberta para esses guias judeus; o convite ainda era mantido.

CONCLUSÃO. Reino de Deus é formado por pessoas que vão além das palavras, que entenderam seu pecado, sua inadequação, arrependeram-se e se colocaram na direção do caminho correto. De pessoas que aprenderam que o “não” não é o melhor caminho e se prontificaram a viver o “sim”. Gente que aprendeu que o que agrada a Deus de verdade é vida e não discurso; é ação e não promessas; é verdade prática e não mentira poética: “A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a Sua obra” (Jo 4.34), assim devemos servir ao Senhor.

FONTE DE PESQUISA.
1. GILBERTO, Antônio. Lições Bíblicas Maturidade Cristã. CPAD
2. HOWARD, R.E, et al. Comentário Bíblico Beacon. CPAD.
3. LOCKYER, Herbert. Todas as Parábolas da Bíblia. VIDA
4. STAMPS, Donald C. Bíblia de Estudo Pentecostal. CPAD.
5. WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo Novo Testamento. GEOGRÁFICA


ENCONTRANDO O NOSSO PRÓXIMO




Lucas 10.25-37 “E eis que se levantou um certo doutor da lei, tentando-o, e dizendo: Mestre, que farei para herdar a vida eterna? 26 E ele lhe disse: Que está escrito na lei? Como lês? 27 E, respondendo ele, disse: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo. 28 E disse-lhe: Respondeste bem; faze isso, e viverás. 29 Ele, porém, querendo justificar-se a si mesmo, disse a Jesus: E quem é o meu próximo? 30 E, respondendo Jesus, disse: Descia um homem de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos salteadores, os quais o despojaram, e espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto. 31 E, ocasionalmente descia pelo mesmo caminho certo sacerdote; e, vendo-o, passou de largo. 32 E de igual modo também um levita, chegando àquele lugar, e, vendo-o, passou de largo. 33 Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, moveu-se de íntima compaixão; 34 E, aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando-lhes azeite e vinho; e, pondo-o sobre a sua cavalgadura, levou-o para uma estalagem, e cuidou dele; 35 E, partindo no outro dia, tirou dois dinheiros, e deu-os ao hospedeiro, e disse-lhe: Cuida dele; e tudo o que de mais gastares eu to pagarei quando voltar. 36 Qual, pois, destes três te parece que foi o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores? 37 E ele disse: O que usou de misericórdia para com ele. Disse, pois, Jesus: Vai, e faze da mesma maneira.

INTRODUÇÃO. Amar ao próximo inclui amar até mesmo aqueles que nos aborrecem, pois encontramos em Deus o maior exemplo de que tal amor é possível.

I. INTERPRETAÇÃO DA PARÁBOLA DO BOM SAMARITANO

1. Uma parábola com diversas interpretações.

1.1. Ela tem sido alvo das mais diversas interpretações. Revelando objetivos que ela não tem. (Ex:) A caminhada humana ao sair do Éden (Jerusalém) e tomar o caminho do mundo (Jericó).

2. Pondo Jesus à prova ou “tentando-o”.

2.1. Era um doutor que queria pôr Jesus à prova (Lc 10.25)

2.2. A intenção por trás deste doutor:

- Colocar à prova o caráter de Cristo.

- Procurava colocar o Mestre em situação difícil.

- Quem sabe queria receber um elogio.

3. “Como lês?”

3.1. Jesus responde ao homem com outra pergunta (Lc 10.26).

- Sobre o conteúdo do mandamento.

- Jesus quer saber como o doutor lê, como o interpreta e de que forma olha para o mandamento.

- O homem não compreendendo limita-se a responder recitando o mandamento tal como está escrito (v.27).

- Jesus, então, o chama para a prática do mandamento (Lc 10.28).

4. Questão principal.

4.1. Não satisfeito, o doutor da Lei quer saber de Jesus "quem" seria o seu próximo (v.29).

4.2. É nesse contexto que a parábola é contada pelo Senhor Jesus (Lc 10.30-33).

- Jamais aquele doutor veria num samaritano um próximo seu (Jo 4.9; 8.48).

- Jesus mostra que aquele doutor da Lei também precisa ver o samaritano como próximo (comp. Mt 18.33).

II. COMPAIXÃO E CARIDADE SÃO INTRÍNSECAS À FÉ SALVADORA

1. Compaixão.

1.1. Jesus revela que o Bom Samaritano teve ‘compaixão’ (Lc 10.33).

1.2. A compaixão é um sentimento intenso que faz com que a pessoa ‘mova-se’ (Lv 10.33; Êx 2.6).

2. Cuidado.

2.1. A parábola revela o aspecto prático do amor, ‘o cuidado’ (Lc 10.34).

2.2. Amarás o teu próximo como a ti mesmo (Lc 10.27; Lv 19.18).

- Esse amor não é retórico.

- Esse amor é na prática (Jo 3.16; 1ª Jo 3.16-18).

3. Caridade.

3.1. O samaritano decidi curar (Lc 10.34).

3.2. O samaritano decidi gastar para ajudar (Lc 10.35).

3.3. Essas atitudes revelam a caridade do samaritano.

- Toda caridade é uma doação de si mesmo (1ª Pe 2.21)

III. O NOSSO PRÓXIMO É QUALQUER PESSOA NECESSITADA

1. O “próximo”.

1.1. No caso da parábola,-o próximo do doutor da lei era quem ele odiava, o samaritano (Jo 4.9; 8.48).

- Era um exemplo doloroso.

1.2. Jesus pergunta qual foi o próximo daquele homem que sofria (Lc 10.36).

. O homem limitou-se a dizer foi o que eu sou de misericórdia (Lc 10.37).

- Ele não falou que foi o samaritano

1.3. Com essa história Jesus respondeu a pergunta do doutor da lei (Lc 10.25).

1.4. A hipocrisia humana já existia na época de Jesus, por isso haviam diversos embates com os doutores da lei (Mt 21.1-36).

2. Ajudar ao próximo não salva, mas é algo que deve ser feito por quem é salvo.

2.1. Nessa parábola Jesus não afirma que o samaritano é salvo por haver feito bem ao próximo.

2.2. Fazer obras de caridade não leva ninguém a salvação (Ef 2.8,9).

2.3. Os verdadeiros filhos de Deus fazem boas obras foram chamados para isso (Ef 2.10; Tg 2.14,17).

2.4. Jesus ensina ao mestre da lei que essa questão pode ser resolvida.

3. A medida do amor para com o necessitado.

3.1. A medida do amor ao próximo pode ser medida com base na necessidade do outro

3.2. Algumas barreiras que nos levam a não ajudar o nosso próximo.

- Diferenças de nacionalidade.

- Religiosidade.

- Grupo social.

3.3. Devemos ter ações concretas (Tg 2.14-16).

4. Sendo o próximo.

4.1. O doutor pergunta quem é o próximo (Lc 10.29).

- Nessa pergunta o doutor da lei não tinha interesse algum em ajudar.

4.2. Na resposta de Jesus é dito o contrário: de quem eu posso ser o próximo (Lc 10.36).

- Nessa resposta o doutor da lei tinha que pensar em ajudar alguém.

4.3. De quem eu posso ser o próximo?

CONCLUSÃO. Aqui aprendemos que o amor não aceita limites na definição de quem é o próximo. Enquanto todas as sociedades e seus segmentos sociais acabam levantando barreiras para separá-las das demais pessoas, os discípulos de Cristo devem olhar para os seres humanos com igualdade, pois o próprio Deus não faz acepção de pessoas (At 10.34).

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

O BOM SAMARITANO – QUEM É O MEU PRÓXIMO?



TEXTO ÁUREO:

“Qual destes três te parece ter sido o próximo do homem que caiu nas mãos dos salteadores?” (Lc 10.36).

LEITURA BÍBLICA

Lucas 10.30-36 “Certo homem descia de Jerusalém para Jerico e veio a cair em mãos de salteadores, os quais, depois de tudo lhe roubarem e lhe causarem muitos ferimentos, retiraram-se, deixando-o semimorto. 31 Casualmente, descia um sacerdote por aquele mesmo caminho e; vendo-o, passou de largo. 32 Semelhantemente, um levita descia por aquele lugar e, vendo-o, também passou de largo. 33 Certo samaritano, que seguia o seu caminho, passou-lhe perto e vendo-o, compadeceu-se dele. 34 E, chegando-se, pensou-lhe os ferimentos, aplicando-lhes óleo e vinho; e, colocando-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e tratou dele. 35 No dia seguinte; tirou dois denários e os entregou ao hospedeiro, dizendo: Cuida deste homem, e, se alguma coisa gastares a mais, eu to indenizarei quando voltar. 36 Qual destes três te parece ler sido o próximo do homem que caiu nas mãos dos salteadores?

INTRODUÇÃO. Nesta lição estudaremos acerca da “parábola do Bom Samaritano”, na qual veremos que Jesus conta a história do samaritano para mostrar que o próximo não é um assunto a ser discutido ou definido, mas uma pessoa que a gente encontra e que precisa de ajuda, pouco importando a raça, cultura ou religião.

Na parábola do Bom Samaritano Jesus é questionado sobre a vida eterna por um doutor da Lei, ao desenvolver o diálogo Jesus apresenta o samaritano como exemplo de amor para com seu próximo.

Podemos chamar o texto de Lc 10,25-37 de um episódio-parábola, que tem como figura central “um homem semimorto”. Em torno dele, diversos personagens se posicionam, em quatro cenas, além de uma cena introdutória e outra de conclusão:

I. CARACTERÍSTICAS DA PARÁBOLA

O contexto. Essa parábola é um primor de beleza e advertência para todos nós. Advertência porque o contexto em que a parábola surge tem a ver com a pergunta do doutor da lei: “Quem é o meu próximo?”, pergunta essa que se originou de outra pergunta: “Mestre, que farei para herdar a vida eterna”? Não podemos separar a parábola do seu contexto e a explicação, qualquer que seja, precisa estar em sintonia com esse inquietante tema. Fica muito claro, nela, a crítica de Jesus à religiosidade aparente dos seus dias, representada nesses dois oficiais do judaísmo: o sacerdote e o levita. Jesus não suportava que as pessoas escondessem um coração indiferente e frio com uma aparência religiosa.

Os samaritanos. Isso é importante para melhor compreensão da parábola em questão. Os samaritanos eram um povo misto, de costumes e religião diferente da dos judeus. Sua origem datava de séculos anteriores, quando os Assírios dominaram o Reino do Norte e enviaram os israelitas para outras nações conquistadas e trouxeram exilados de outras partes, forçando uma miscigenação racial, cultural e religiosa. O ponto crucial da discórdia era o templo do monte Gerizim. Essa zanga centenária fazia, desde muito, que a maior parte dos judeus sentisse repugnância em manter relações sociais e religiosas com os samaritanos. O relacionamento deles era deteriorado. Havia uma enorme barreira étnica, religiosa e social entre eles.
Portanto, fica fácil perceber, a partir do que foi dito, que Jesus não foi nem um pouco convencional quando introduziu a figura do samaritano na história contada. A simples menção do samaritano já deve ter provocado um ar de descaso no doutor da lei, mas a descrição dele como o herói era insuportável.

3. O conceito de “próximo”. Para Jesus não basta estar perto, é preciso ser próximo. Tanto o sacerdote como o levita estavam perto do homem caído, mas nenhum deles agiu como “o próximo” dele.

3.1. Ser próximo pode ter muitas implicações. Aqui, nesta parábola, o próximo era:

3.2. Não atraente (o homem caído estava espancado e ensanguentado].

3.3.Sem condições de retribuir (pelo menos naquele momento).

3.4. Implicava numa mudança da agenda.

3.5. Envolvia riscos (e se os ladrões ainda estivessem por ali?).

3.6. Envolveu perda de conforto (ele o colocou na sua cavalgadura).

3.7. Implicou perda financeira (pagou a estada do desconhecido).

Então é simples: toda vez que eu e você encontrarmos alguém que precisa de nós, então encontramos nosso próximo. Para Jesus, o próximo é aquele que precisa de mim.

II. OS PERSONAGENS DA PARÁBOLA

No episódio-parábola de Lc 10,25-37 há vários personagens de vários tipos. Há personagens reais e outros implícitos. Vejamos.

1. Escriba. Homem identificado pela função de especialista na lei mosaica.

2. Jesus. Protagonista de todo o enredo, dirige a reflexão em torno da pergunta feita pelo escriba sobre o que fazer para herdar a vida eterna. Observem que Lucas não cita nenhum nome dos personagens desse episódio-parábola, exceto o de Jesus.

3. Homem assaltado e ferido. “Único personagem que não foi identificado por uma marca social ou geográfica”. Dele se diz somente que viajava de Jerusalém para Jericó. Estava em movimento, depois foi “imobilizado”. Levado para uma hospedaria por um samaritano, onde ficou em “recuperação”.

4. Assaltantes. São diversos, e o “homem” está “no meio deles”, “entre as mãos deles”. O foco não está na ação dos assaltantes, mas no estado deplorável no qual o assaltado foi deixado.

5. Sacerdote. Identificado pelo seu papel no templo. Como o assaltado, passa pela mesma estrada e no mesmo sentido: “Descia de Jerusalém para Jericó” (Lc 10,31). Seus “interesses pessoais”, como também do levita, são mais importantes do que socorrer um ferido, ameaçado de morte.

6. Levita. Personagem “semelhante” ao sacerdote, também identificado pelo seu papel no culto. Assim como o assaltado e o sacerdote, transita pela mesma estrada e no mesmo sentido. Como figuras do culto, o sacerdote e o levita representariam, em Lc 10,30-35, um tipo de piedade que favorece o sacrifício em detrimento da compaixão. Contra isso se levantou o profeta Oséias (Os 6,6, citado em Mt 9,13; 12,7), que enfatiza “quero misericórdia e não sacrifício”.

7. Samaritano. Personagem anônimo; identificado pelo seu país de origem; estrangeiro; impuro, segundo os judeus. “Está em viagem”, no mesmo movimento que os três primeiros personagens; não se sabe se ele ia a Jerusalém ou vinha daquela cidade e este detalhe é importante: tanto o assaltado quanto o sacerdote e o levita viajavam no mesmo sentido, de Jerusalém para Jericó, mas é possível que o samaritano estivesse viajando na direção contrária. Isso pode significar que o samaritano tinha suas responsabilidades pessoais; estava “em viagem” (de Jerusalém a Jericó?) trabalhando. Enquanto isso, o sacerdote e o levita estavam voltando de seu turno de trabalho no templo, e esta circunstância lhes daria maior disponibilidade de tempo.

8. Dono da pensão. Identificado pela sua profissão; não está em viagem por aquela estrada, mas tem uma hospedaria em um determinado ponto da estrada, onde exerce a profissão de acolher as pessoas. “O dinheiro que ele recebe faz dele quase uma extensão impessoal do samaritano”.

III. O DOUTOR DA LEI (Lc 10.25 - ARC)
1. Quem era o Doutor da lei.
No sentido judaico o doutor da lei era um intérprete e professor (mestre) da Lei Mosaica (Mt 22.35; Lc 7.30; 11.45,52; 14.3). Os “mestres da lei” eram os estudiosos judeus da época, profissionais do desenvolvimento, ensino e aplicação da Lei. Sua autoridade era estritamente humana e tradicional. Também eram membros do Sinédrio.

2. O objetivo do doutor da lei.
Lc 10.25 “E eis que certo homem, intérprete da Lei, se levantou com o objetivo de pôr Jesus à prova”.
A intenção não era aprender de Jesus, mas sim, testar Jesus na expectativa de encontrar uma oportunidade para acusar o Senhor Jesus.

3. A situação espiritual dos doutores da lei.
Jesus nos conta como estava a situação espiritual e moral dos doutores da leia ao dizer: Mas Jesus respondeu:
Lc 11.46, 52-54 “Ai de vocês também, intérpretes da Lei! Porque sobrecarregam os outros com fardos superiores às suas forças, mas vocês nem sequer com um dedo tocam nesses fardos. Ai de vocês, intérpretes da Lei! Porque vocês pegaram a chave do conhecimento. No entanto, vocês mesmos não entraram e impediram os que estavam entrando. Quando Jesus saiu dali, os escribas e fariseus começaram a contestá-lo com veemência, fazendo perguntas a respeito de muitos assuntos, com o objetivo de tirar daquilo que ele dizia um motivo para o acusar.
IV. COMPAIXÃO E CARIDADE SÃO INTRÍNSECAS À FÉ SALVADORA

1. Compaixão. A parábola, como um todo, é marcante, mas um momento indispensável em qualquer reflexão sobre ela está no versículo 33, quando o Mestre diz que o samaritano “chegou ao pé dele e, vendo-o, moveu-se de íntima compaixão”. A “compaixão” aqui se refere a um sentimento intenso que causa tanto incômodo a ponto de alterar não apenas a consciência, ou o pensamento, mas também o aspecto físico, pois o texto diz que o samaritano “moveu-se”.

2. Cuidado. O versículo 34 diz que o samaritano “aproximando-se, atou-lhe as feridas, aplicando-lhes azeite e vinho; e, pondo-o sobre a sua cavalgadura, levou-o para uma estalagem e cuidou dele”. Essa ação toca no aspecto da prática do amor, isto é, o cuidado, contida no mandamento, pois este ordena: “Amarás ao Senhor, teu Deus [.] e ao teu próximo como a ti mesmo” (v.27 cf. Lv 19.18). O amor de que trata o mandamento, não é retórico e muito menos platônico, isto é, existindo apenas no mundo das ideias. Deus nos mostra e exemplifica o amor verdadeiro no texto de João 3.16 quando diz que “amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”. A expressão grega para dizer que Deus amou, neste texto, foi agapao, que se refere ao amor prático, um amor que se comove, um amor que se enche de íntima compaixão. Ensina-nos que não basta dizermos que amamos, e nem mesmo apenas amarmos, há que se avançar para o segundo estágio que é a prática do cuidado (1Jo 3.16-18). Não há demonstração de cuidado sem prática, assim como não há amor sem compaixão.

3. Caridade. O samaritano da parábola não apenas aproxima-se do homem que está ferido à beira do caminho e nem somente se compadece dele, mas decide curá-lo, dar-lhe atendimento de emergência e conduzi-lo a uma estalagem (v.34). Já na estalagem, o samaritano recomenda ao hospedeiro que cuide do homem, pois ele prosseguiria sua viagem e, quando voltasse, pagaria qualquer despesa que tivesse sido gerada (v.35). Tais atitudes são uma clara demonstração de amor, ou seja, o amor do samaritano ao próximo foi expresso em atitudes e ações, ao ponto de se comprometer até mesmo com os gastos que seriam gerados com a hospedagem do homem ferido. Para Cristo, só existe realmente caridade se houver demonstração de amor, pois no texto de João 3.16 não diz apenas que Deus “amou”, mas também que Ele “deu” o seu Filho. A evidência de que Deus ama é demonstrada pela sua compaixão pelo mundo perdido. Deus se compadece e mostra isso na prática (Rm 9.16).

V. O NOSSO PRÓXIMO É QUALQUER PESSOA NECESSITADA

1. O “próximo”. Na Parábola, quem se fez “próximo” do homem ferido foi uma pessoa que o doutor da Lei teria como completamente indigna de receber sua atenção e cuidados, visto que judeus e samaritanos nutriam recíproco sentimento de desprezo e quase ódio. Não havia para aquele doutor exemplo mais doloroso para Cristo utilizar-se. Isso fica demonstrado quando, ao final da narrativa, Jesus pergunta ao doutor da Lei qual dos três havia sido o “próximo” do homem que foi espancado pelos salteadores (v.36) e este se limita a responder: “O que usou de misericórdia para com ele” (v.37). Ou seja, ele sequer diz que foi o “samaritano”. Mesmo assim, a palavra de Jesus, visando responder a pergunta inicial (v.25), foi que o doutor da Lei fizesse o mesmo. Da mesma forma devemos colocar em prática o amor que afirmamos ter a Deus sobre todas as coisas, e ao nosso próximo, pois só assim fazendo estaremos aptos à vida eterna. Infelizmente, nos tempos de Jesus a hipocrisia humana, que faz com que homens conhecedores não sejam praticantes do próprio conhecimento, já estava bem presente na sociedade judaica. Por isso, Jesus teve diversos embates com os doutores da Lei (Mt 23.1-36).

2. Ajudar ao próximo não salva, mas é algo que deve ser feito por quem é salvo. Nesta parábola, Jesus não quer afirmar que o samaritano pudesse alcançar a salvação por causa de sua beneficência e de sua atitude amorosa. Jesus apenas está respondendo à pergunta formulada pelo professor da Lei. É importante salientarmos que fazer obras de caridade não leva ninguém à salvação (Ef 2.8,9). Contudo, os verdadeiros filhos de Deus são “feitos” para as boas obras, isto é, as realizam naturalmente (Ef 2.10; Tg 2.14,17). Assim, Cristo mostra ao mestre da Lei que uma pessoa sincera soluciona facilmente essa questão que, aos olhos daquele homem, parecia tão complexa.

3. A medida do amor para com o necessitado. A medida do amor para com o próximo não deve ser estabelecida com base nas diferenças de nacionalidade, de confissão religiosa ou do grupo social, mas unicamente com base na necessidade do outro. O próximo que se encontra em uma situação de emergência e precisa que algo seja realizado por ele naquele momento, não pode esperar qualquer análise ou palavra “motivacional” (Tg 2.14-16). Por isso, estamos falando em ações concretas, ajudas materiais, assim como na parábola contada por Jesus.

4. Sendo o próximo. O doutor da Lei havia perguntado quem era o próximo dele (v.29). Na resposta de Jesus, a pergunta é inversa, ou seja, de quem eu posso, ou devo, ser o próximo? (v.36). A questão colocada pelo doutor da Lei não continha nenhum interesse ou compromisso em ajudar de verdade. Já a indagação de Jesus forçava-o a pensar acerca dessa obrigação. De acordo com o ensinamento de Jesus, o que fica claro é que o “próximo” trata-se de qualquer pessoa que se aproxima de outras com amor verdadeiro e generoso sem levar em conta as diferenças religiosas, culturais e sociais. Jesus retoma a pergunta inicial e conclui dando uma resposta inesperada, pois o caminho proposto por Ele é pautado no amor, com demonstrações práticas, para com todos os homens (Lc 10.37). O coração cheio de amor fala e age de acordo com a consideração do Mestre, perguntando sempre de quem eu posso ser o próximo, ou seja, a quem devo socorrer.

VI. CONCLUSÕES DA PARÁBOLA

1. Omissão é pecado. Isso também está claro aqui. O pecado deles não foi algo sem importância. Nas Escrituras está dito: “Não te furtes a fazer o bem a quem de direito, estando na tua mão o poder de fazê-lo” (Pv 3.27). Tiago, na mesma sintonia, afirma: “Aquele que sabe que deve fazer o bem e não o faz nisso está pecando” (Tg 4.17). Temos ainda o ensino claro de que a fé sem obras nada vale, é sem vida e estéril (Tg 2.14-26). Hernandes D. Lopes diz: “Indiferença é a apostasia do amor, o divórcio da misericórdia e a morte da sensibilidade, pois quem ama tem pressa em socorrer”. Não é possível nos omitir do que chegou até nós como possibilidade de demonstrar nossa fé e o amor de Cristo.

2. O herói foi o samaritano. O herói da parábola, o excluído, não é o que sofre, é o que cuida. Não podemos ignorar isso. Quem age com grandeza aqui e é erguido por Jesus para ser imitado é aquele que era desconsiderado, que os religiosos achavam que nada teria para contribuir. Os ouvintes da história decerto esperariam que o sacerdote e o levita fossem seguidos por um israelita leigo, seria a sequência lógica. O efeito de introduzir na história um samaritano foi devastador. Tendo em vista o ressentimento tradicional entre os judeus e samaritanos, um samaritano era a última pessoa de quem se podería ter esperado socorro. Jesus foi muito provocativo. Na verdade, Ele denuncia uma religião falsa, formal e destituída de compaixão. Foi o samaritano que se compadeceu e ofereceu todo o socorro que se poderia esperar no local e depois disso. Além de cuidar dos ferimentos com azeite e vinho, ele leva o desconhecido (provavelmente um judeu) para uma estalagem, pagando o equivalente a quase um mês de hospedagem e ainda obrigando-se a indenizar o hospedeiro quando voltasse, caso houvesse alguma despesa extra.

CONCLUSÃO. “Vai e faze o mesmo”. Ao concluir a parábola com a expressão “Vai e procede tu de igual modo”, Jesus mostra aquilo que esperava do doutor da lei, dos ouvintes e de todos nós. O bom samaritano, e não o sacerdote ou o levita, era o exemplo a ser seguido. Ao que parece, tudo o que o doutor da lei desejava era que Jesus lhe desse uma regra ou, quem sabe, uma coletânea delas. Ao contar a parábola e no fim dizer “Vai e faze o mesmo”, Jesus está dizendo que não basta ter a doutrina correta, é necessário amar, pois o amor é a própria vida e dinâmica do reino que Ele veio estabelecer. Interessante que tanto a vida de Jesus como os demais ensinos do Novo Testamento fortalecem e confirmam essa verdade. Se fossemos perguntar, por exemplo, a João, apóstolo, como nós sabemos que temos a vida eterna, uma das suas resposta certamente seria: “Você ama o seu próximo? Deus é amor e aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus” (1ª Jo 3.16; 4.7,20 e 21).

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

PERDOAMOS PORQUE FOMOS PERDOADOS


Mt 18.21-35 “Então Pedro, aproximando-se dele, disse: Senhor, até quantas vezes pecará meu irmão contra mim, e eu lhe perdoarei? Até sete? 22 Jesus lhe disse: Não te digo que até sete; mas, até setenta vezes sete. 23 Por isso o reino dos céus pode comparar-se a um certo rei que quis fazer contas com os seus servos; 24 E, começando a fazer contas, foi-lhe apresentado um que lhe devia dez mil talentos; 25 E, não tendo ele com que pagar, o seu senhor mandou que ele, e sua mulher e seus filhos fossem vendidos, com tudo quanto tinha, para que a dívida se lhe pagasse. 26 Então aquele servo, prostrando-se, o reverenciava, dizendo: Senhor, sê generoso para comigo, e tudo te pagarei. 27 Então o senhor daquele servo, movido de íntima compaixão, soltou-o e perdoou-lhe a dívida. 28 Saindo, porém, aquele servo, encontrou um dos seus conservos, que lhe devia cem dinheiros, e, lançando mão dele, sufocava-o, dizendo: Paga-me o que me deves. 29 Então o seu companheiro, prostrando-se a seus pés, rogava-lhe, dizendo: Sê generoso para comigo, e tudo te pagarei. 30 Ele, porém, não quis, antes foi encerrá-lo na prisão, até que pagasse a dívida. 31 Vendo, pois, os seus conservos o que acontecia, contristaram-se muito, e foram declarar ao seu senhor tudo o que se passara. 32 Então o seu senhor, chamando-o à sua presença, disse-lhe: Servo malvado, perdoei-te toda aquela dívida, porque me suplicaste. 33 Não devias tu, igualmente, ter compaixão do teu companheiro, como eu também tive misericórdia de ti? 34 E, indignado, o seu senhor o entregou aos atormentadores, até que pagasse tudo o que devia. 35 Assim vos fará, também, meu Pai celestial, se do coração não perdoardes, cada um a seu irmão, as suas ofensas.

INTRODUÇÃO. Respondendo um questionamento de um dos discípulos sobre o perdão, Jesus contou a parábola denominada de “credor incompassivo”, cujo ensinamento principal foi de que assim como Deus perdoa as nossas iniquidades, de forma semelhante devemos exercer misericórdia de forma ilimitada para com aqueles que pecam contra nós.

- Esta parábola, que ocorre apenas em Mateus, é uma narrativa muito simples sobre a necessidade de liberarmos perdão para aquele que nos ofendeu ou machucou. A razão é simples: fomos alcançados pelo gracioso perdão de Deus. Perdão, sem sombra de dúvidas, é um dos temas centrais da palavra de Deus.

I. INFORMAÇÕES A RESPEITO DESTA PARÁBOLA
1. Curiosidades. Esta parábola destaca-se entre as demais pelas seguintes características: 1.1.Ela só é encontrada no Evangelho de Mateus (Mt 18.23-35).
1.2. Está entre as classificadas “parábolas do Reino” (Mt 18.23).
1.3.É uma das poucas parábolas que trata acerca do perdão (Mt 18.35), a outra está em Lucas 7.41,42.

2. Pano de fundo. O pano de fundo que levou Jesus a contar esta parábola, foi para responder uma pergunta do apóstolo Pedro. Ele queria saber quantas vezes tinha que perdoar esse irmão: “Senhor, até quantas vezes pecará meu irmão contra mim, e eu lhe perdoarei?” (Mt 18.21-b). O Talmude judaico baseado em Amós caps 1 e 2, ensinava que não se devia perdoar ao ofensor além de três vezes (BEACON, 2008, p. 131 – acréscimo nosso). Talvez querendo mostrar-se generoso, Pedro sugeriu: “Até sete?” (Mt 18.21-c), quem sabe aproveitando uma fala de Jesus em outra ocasião, quando disse que devia se perdoar o irmão até “sete vezes no dia” (Lc 17.3,4). No entanto, a resposta de Jesus foi extremamente confrontadora a perspectiva humana sobre o perdão, mostrando que não deve haver limites para exercê-lo: “Não te digo que até sete; mas, até setenta vezes sete” (Mt 18.22). Se sete é um número que representa completude, setenta vezes sete deve ser plenitude absoluta (BOYER, 2009, p. 383).

II. OS PERSONAGENS DA PARÁBOLA
Embora a narrativa parabólica seja fictícia os personagens são figuras presentes do cotidiano de Israel. Vejamos quais os personagens desta parábola:

1. O rei (v.23). Jesus iniciou esta parábola falando do primeiro personagem: “o reino dos céus pode comparar-se a um certo rei” (Mt 18.23-a). É dito que este rei resolveu ajustar as contas com seus servos, a quem ele havia emprestado um dinheiro (Mt 18.23); que ele era generoso (Mt 18.26,33); mas, também justo (Mt 18.32-34).

2. Um servo (vs. 23-24). Quando o rei iniciou o trabalho de prestação de contas entre os seus servos “foi-lhe apresentado um que lhe devia dez mil talentos” (Mt 18.24-b). Sua dívida era muito grande visto que “um talento era o valor equivalente a seis mil denários, o que equivalia a seis mil dias úteis de trabalho ou trinta anos de trabalho. Um único talento era quase a renda de uma vida inteira” (ROBERTSON, 2011, p. 209). Na parábola é dito que ele não tinha com que pagar (Mt 18.25-a). Diante disso, o rei, valendo-se da Lei de Moisés (Êx 22.3; Lv 25.39,47), ordenou que este servo e toda a sua família fossem seus servos a fim de quitar a dívida (Mt 18.25). Ao saber que ele toda a família serviriam ao rei, este servo prostrou-se diante do rei e apelou para a sua misericórdia, rogando-lhe que lhe desse mais tempo para salvar a dívida completamente (Mt 18.26). Diante do pedido do servo, o rei, movido de íntima compaixão, decidiu perdoá-lo da dívida: “Então o senhor daquele servo, movido de íntima compaixão, soltou-o e perdoou-lhe a dívida” (Mt 18.27). Sobre este servo é dito que era apto a pedir misericórdia, mas não de exercer misericórdia (Mt 18.26,33). Por causa dessa atitude ele é chamado pelo rei de “servo malvado” (Mt 18.32-a).

3. O conservo (v. 28). Ao sair da presença do rei com a sua dívida perdoada, o servo encontrou-se com um dos seus conservos (Mt 18.28); e, ao abordá-lo cobrou lhe os “cem dinheiros” ou “cem denários”, que este lhe devia: “e, lançando mão dele, sufocava-o, dizendo: Paga-me o que me deves” (Mt 18.28-b). O denário equivalia a um dia de trabalho (Mt 20.2) (CHAMPLIN, 2004, p. 474). O conservo diante da cobrança se humilhou e rogou misericórdia para poder saldar o seu débito “... prostrando-se a seus pés, rogava-lhe, dizendo: Sê generoso para comigo, e tudo te pagarei” (Mt 18.29). No entanto, seu pedido por generosidade foi negado, e ele foi sentenciado a prisão, até que quitasse a dívida (Mt 18.30). Embora estivesse em seu poder perdoar o conservo, este homem o negou: “Ele, porém, não quis...” (Mt 18.30).

Vejamos abaixo as diferenças entre o servo e o conservo:

SERVO.
- Foi chamado pelo rei para prestar contas (Mt 18.23,24).
- Devia dez mil talentos (Mt 18.24).
- Prostrou-se para pedir tempo para pagar e foi perdoado (Mt 18.25-27).

CONSERVO.
- Foi abordado com violência pelo seu senhor (Mt 18.28)
- Devia cem dinheiros (Mt 18.28).
- Prostrou-se para pedir tempo para pagar e foi preso (Mt 18.29,30).

III. ENTENDENDO QUEM OS PERSONAGENS REPRESENTAM
Nem sempre os personagens de uma parábola tem significação. No entanto, nesta, percebemos que Cristo lhes dá um sentido. Vejamos:

1. Deus é o rei (v. 35). Embora nem sempre nas parábolas cada personagem tenha um significado, nesta especificamente, fica claro que o “rei” é uma figura de Deus, como o próprio Jesus aplica (Mt 18.35). O rei é o principal chefe ou governante de uma tribo ou nação” (CHAMPLIN, 2004, p. 617). O título de rei, nas Escrituras, tanto é aplicado ao Pai (Sl 10.16; 145.13; Jr 10.10) como ao Filho (Ap 17.14; 19.16). O monarca desta parábola retrata o caráter divino pois é apresentado como um rei que:

1.1. Se compadece: “movido de íntima compaixão” (Ef 2.4,5; Tt 3.5; 1ª Pd 2.10; Sl 103.13; Rm 12.1).

1.2. Liberta: “soltou-o” (Ef 1.7; 1ª Pd 1.18,19; Lv 17.11).

1.3. Perdoa: “e perdoou-lhe a dívida” (Is 55.7; 1ª Jo 1.9). Sua bondade em perdoar o servo de sua dívida e sua justiça e juízo de puni-lo por negar misericórdia ao conservo retratam perfeitamente o caráter divino que está disposto a perdoar o pecador arrependido (Mt 9.13; Lc 5.32; Rm 11.32), mas também de punir ao pecador perdoado que se recusa liberar perdão (Mt 6.15; 18.34,35; Mc 11.26).

2. Nós somos os servos (Mt 18.23,35). Os servos do rei são todos aqueles que se submeteram a Cristo como Senhor e Salvador. Isto fica evidente no início da parábola, quando Jesus está falando do Reino de Deus aos súditos desse Reino, ou seja, seus discípulos (Mt 18.23). Assim como este servo tinha uma dívida da qual não tinha condições de pagar ao rei e clamando por misericórdia foi perdoado, ele retrata a nossa condição de pecadores diante de Deus (Rm 3.23) que somente por Sua imensurável graça poderíamos ser restaurados, pois o pecado é uma dívida que o homem contrai, para a qual o único recurso é o perdão (Cl 2.13; 1ª Jo 1.9; 2.12).

3.O conservo é o nosso irmão (Mt 18.28,35). O conservo da parábola é o nosso irmão, isto fica claro, a luz do contexto, ou seja, do texto que precede a parábola, quando vemos Jesus falar sobre o tratamento que se deve a “um irmão que peca contra o outro” (Mt 18.15). O rei perdoou o servo a sua dívida e esperava que ao menos o servo perdoado pudesse fazer o mesmo com o seu conservo, por isso disse “Não devias tu, igualmente, ter compaixão do teu companheiro, como eu também tive misericórdia de ti?” (Mt 18.33). Não podemos agir com o nosso irmão diferente da forma como Deus age conosco (Lc 10.27). Isto Jesus ensinou quando disse “e, quando estiverdes orando, perdoai, se tendes alguma coisa contra alguém, para que vosso Pai, que está nos céus, vos perdoe as vossas ofensas” (Mc 11.25). O apóstolo Paulo também firmou: “como Cristo vos perdoou, assim fazei vós também” (Cl 3.13; Ef 4.32); os demais apóstolos transmitiram o mesmo ensino (1ª Pd 2.21; 1ª Jo 1.7; 4.7).

IV. O PRINCIPAL ENSINAMENTO DESTA PARÁBOLA: O PERDÃO

Mateus registrou os ensinamentos de Jesus mais diretamente relacionados com a conduta dos seus discípulos como membros do Reino trazido à terra por Ele. O reino dos céus tem valores essencialmente diferentes dos que caracterizam as instituições terrenas e as organizações seculares. A sociedade dos perdoados fica sem sentido, se os que são perdoados não perdoam (TASKER, 2006, p. 138). O verbo “perdoar” significa: “renunciar a punir; desculpar; poupar; ver com bons olhos” (HOUAISS, 2001 p. 2185). Sobre o perdão, Jesus ensinou que:

1. O perdão não deve ser limitado (vs. 21-22). A resposta de Jesus a pergunta de Pedro quantas vezes se devia perdoar o irmão ofensor com a sugestão de “até sete” (Mt 18.21-c), teve como resposta do Mestre “até setenta vezes sete” (Mt 18.22), o que significa dizer: de forma ilimitada. Assim como Deus amou o mundo de maneira ilimitada (Jo 3.16), devemos reproduzir este amor nos nossos relacionamentos (1ª Jo 3.16).

2. O perdão não deve ser negado (Mt 18.35-a). Jesus ensinou que não podemos negar o perdão aquele que arrependido nos rogar, tendo como base o caráter generoso do próprio Deus, que sempre nos perdoa quando sinceramente lhe pedimos. A Bíblia diz que Ele “está pronto a perdoar” (Sl 86.5); e, que é “grandioso em perdoar” (Is 55.7). Veja ainda: (2º Cr 7.14; Pv 28.13; 55.7; 1ª Jo 2.1). Portanto, quando perdoamos nos assemelhamos a Deus (Lc 6.36; Ef 4.32 Cl 2.13; 1ª Jo 1.9; 2.12).

3. O perdão não deve ser superficial (Mt 18.35-b). Perdoar é mais que palavras (1ª Jo 3.18). Jesus ensinou que é preciso que o perdão brote do coração, ou seja, do íntimo do nosso ser (Mt 18.35-b). A Bíblia diz que não podemos guardar ira no coração (Ef 4.26; Tg 3.14), nem permitir que nele brote raiz de amargura (Ef 4.31; Hb 12.15). Como é nele que pode se formar o ódio, é nele que o perdão deve nascer a fim de curar o mal em sua nascente. Ainda sobre o perdão é preciso destacar que:

3.1. É uma condição para permanecermos em comunhão Deus (Mt 6.12,14-15; 18.35; Mc 11.25,26).

3.2. Ele revela se somos autênticos cristãos (Mt 3.8; 7.20; 12.33; Lc 6.44; Gl 5.22).

3.3. Ele é condição para Deus receber a nossa oferta (Mt 5.23,24).

CONCLUSÃO. Jesus ensinou que as ofensas que os homens cometem uns contra os outros são mínimas em comparação às ofensas que todos cometem contra Deus. Se Ele nos perdoa por Sua graça, devemos tratar o nosso próximo com a mesma graça.

FONTE DE PESQUISA.
1. SITE ASSEMBLÉIA DE DEUS. file:///C:/Users/Elias/Downloads/1f32aca61b.pdf - ACESSO DIA 14/11/2018.
2. BOYER, Orlando. Espada Cortante. CPAD.
3. CHAMPLIN, R. N. Dicionário de Bíblia, Teologia e Filosofia. HAGNOS.
4. HOUAISS, Antônio. Dicionário da Língua Portuguesa. OBJETIVA.
5. HOWARD, R.E, et al. Comentário Bíblico Beacon. CPAD.
6 ROBERTSON, A.T. Comentário de Mateus e Marcos. CPAD.
7. STAMPS, Donald C. Bíblia de Estudo Pentecostal. CPAD.