TEOLOGIA EM FOCO

domingo, 9 de outubro de 2016

A LEI E A GRAÇA

Muitos afirmam que a lei e a graça se chocam. Porém, apesar de serem diferentes, elas não se chocam, mas se completam. “Porque a lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo” (João 1.17).

Uma das diferenças mais significativas entre a lei e a graça é que a lei é negativa, pois procura evitar o mal através de proibições e ameaças. Ela nos orienta para fazermos a vontade de Deus, dando-nos os recursos necessários para tal. Já a graça é positiva e dinâmica: “Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis” (Ez 35.27).

Na lei predomina o “não”: “Não faça isso! Não faça aquilo!” Na graça predomina o “sim”: “Pois Jesus Cristo, o Filho de Deus […] não é sim e não ao mesmo tempo. Pelo contrário, Ele é o sim de Deus. Porque todas quantas promessas há de Deus são nele sim” (2ª Co 1.19-20).

A lei veio para mostrar o estado de alienação do homem (Rm 5.20). Contudo, Paulo disse: onde o pecado abundou, “superabundou a graça”. Deste modo, Deus estabeleceu o reinado de Sua graça, por meio da justiça de Cristo, não dos homens, para produzir vida abundante, ao povo salvo.
Portanto, as regras quando impostos na igreja como meio de salvação, passa ser uma ser uma lei. E quanto mais leis impostas pelos homens na igreja, maior é tendência do povo pecar. Paulo diz que a lei suscita ira: “Sem lei não há pecado, vindo à lei veio o pecado” (Rm 4.15). “Pois a lei nunca aperfeiçoou coisa alguma, e, por outro lado, se introduz esperança superior, pela qual nos chegamos a Deus” (Hb 7.19). Portanto a lei veio por Moisés, mas a graça por meio de Jesus Cristo.

A graça salvadora não depende da obediência da lei:

“Porque o pecado não terá domínio sobre vós; pois não estais debaixo da lei, e sim da graça” (Rm 6.14).

Uma forma segura para destruir a graça de Deus, é misturá-la com algum mérito qualquer que seja.
“E, se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça”.

Note que a graça de Deus não está associada aos nossos méritos, mas diametralmente oposto, conforme Paulo esclarece em Romanos 11.6:

“E, se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça”.
Igualmente, a graça não depende da obediência da lei:

I.       A NOVA ALIANÇA

Da mesma maneira como Moisés foi mediador da aliança Mosaica, assim Cristo é o mediador da nova aliança, Hb 8.6. Com a vinda de Cristo a aliança Mosaica terminou, com a declaração do apóstolo Paulo em Rm 10.4 e Gl 3.19.

No dia da instituição da Santa Ceia o Senhor Jesus Cristo apresentou a Nova Aliança “Este é o cálice da nova aliança no meu sangue derramado em favor de vós”. Lc 22.20. Jesus havia dito “Isso é o meu sangue, o sangue da nova aliança derramado em favor de muitos para a remissão de pecados” Mt 26.28. A provisão desta aliança era o perdão dos pecados.

A Nova Aliança inclui a presença do “Testamento” que somente tem validade quando acontece a morte do testador, neste caso o testador é Cristo. (Gl 3.15 e Hb 9.16-17).

Esse período jurídico referia-se também a Velha Aliança, pois essa também foi introduzida, delicada e sancionada pelo derramamento de sangue (Hb 9.18-20). O derramamento de sangue significava a morte do testador e concedeu a natureza de dádiva à Aliança. A Aliança Mosaica era, pois transitória e de qualidade assistencial, não era, pois definitiva. Podemos entender isso pelo fato de animais serem sacrificados como tipos do cordeiro de Deus que posteriormente daria a sua vida. Quando Jesus anunciou que o seu sangue daria, o sangue da Nova Aliança, entendemos que ele mesmo era o testador, ou seja, doador da Nova Aliança ou do Novo Testamento.

A palavra chave para esta dispensação é graça. O tempo de duração da dispensação da graça vai da crucificação de Cristo até a sua Segunda vinda, período esse que já abrange quase dois mil anos.
Com a morte de Cristo Deus consagrou um novo caminho de acesso a Sua pessoa. Esse acesso ao trono da graça e a abolição do caminho cerimonial foram simbolizados pelo rasgar do véu do templo no momento em que Jesus morreu.

A dispensação da graça, no entanto, só foi inaugurada no dia de pentecostes quando o Espírito foi derramado sobre os crentes reunidos no cenáculo. A experiência pentecostal do poder do Espírito Santo torna real na vida dos crentes, aquilo que Jesus proveu pela sua morte na cruz.

As profecias e as leis do Antigo Testamento são cumpridas em Jesus Cristo. Nosso Senhor Jesus Cristo cumpriu todas as profecias Messiânicas do Antigo Testamento.

“A carta aos romanos revela mais claramente o que é graça. No capítulo 3, vemos que éramos pecadores e, por isso, carecíamos da glória de Deus. Por essa razão, Deus justificou-nos gratuitamente por meio da Sua graça e recebemos Sua vida. O pecado entrou no homem por meio da desobediência de Adão, e com o pecado entrou a morte.

Deus não criou o homem para que esse morresse, mas para ter a vida eterna. Entretanto, em Adão todos pecaram e “a morte passou a todos os homens” (Rm 5.12), impedindo o homem de desfrutar da glória e da graça de Deus. Por isso, Paulo diz que a morte reina (v. 14). Estamos no tempo em que podemos desfrutar da graça e da verdade, o qual se estenderá até a entrada do reino milenar, mas até hoje a morte tem reinado. Somente quando saímos do domínio de Satanás, do domínio do pecado, da vida natural, e nos uniu em vida a Cristo é que escapamos do reinar da morte e passamos a reinar em vida”.

“Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram” (Rm 5.12).

Todavia, não é assim o dom gratuito como a ofensa; porque, se, pela ofensa de um só, morreram muitos, muito mais a graça de Deus e o dom pela graça de um só homem, Jesus Cristo, foram abundantes sobre muitos.

A graça de Deus nos da liberdade para desfrutar dos direitos de filhos. É liberdade para ser tudo o que Cristo quer que seja, sem ter que se fixar-me como são os demais. Ensina a ser eu mesmo, não uma marionte dos demais.

“Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 6.23).

Uma vez que todo homem, sem exceção, é pecador, ninguém jamais tem a capacidade aproximar-se do padrão da justiça exigida por Deus. Alguns se esforçam mais, outros menos, porém desde Adão até a ultima criança a nascer, todos são excluídos da comunhão com Deus cf. Rm 3.23. Toda a humanidade foi infectada pelo pecado original. Isso quer dizer que todo descendente de Adão e Eva carrega a culpa universal e também uma inclinação pecaminosa. Daí surge à necessidade absoluta da graça de Deus. Antes ou depois de Cristo, sem que receba a graça perdoadora de Deus, não houve e nem há salvação.

Na graça vivemos sob orientação do Espírito Santo em Cristo Jesus: “Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte. Porquanto o que fora impossível à lei, no que estava enferma pela carne, isso fez Deus enviando o seu próprio Filho em semelhança de carne pecaminosa e no tocante ao pecado; e, com efeito, condenou Deus, na carne, o pecado, a fim de que o preceito da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito” (Rm 8.2-4).

“Uma vez que o homem é incapaz de cumprir a lei por causa de sua natureza caída, o ministério veterotestamentário, porquanto, tornou-se um ministério da condenação. O ministério do Novo Testamento, porém, é diferente, pois visa a que pessoas ganhem vida.

A lei de Deus era fraca pela carne Rm 8.3. Deus enviou Jesus e condenou o pecado na carne Rm 8.3. Em Cristo à ordenança da lei de Deus é cumprida em nós que andamos segundo o Espírito Rm 8.4. Aqueles segundo o Espírito estão com a mente segundo o Espírito (Rm 8.5).

A mente do Espírito é vida e paz. Vocês não estão na (em) carne, mas no (em) Espírito sendo que o Espírito de Deus habita em vocês (Rm 8.9). Somos devedores não para a carne, para viver segundo a carne Rm 8.12. Se você pelo Espírito levar a morte (mortificar) as práticas do corpo, você viverá (Rm 8.13).

Todos que são guiados pelo Espírito de Deus, estes são filhos de Deus (Rm 8.14). Você recebeu um Espírito de adoção pelo qual clama Aba, Pai (Rm 8.15).

Na graça o verdadeiro cristão é guiado pela lei do Espírito. “... mas, se sois guiados pelo Espírito, não estais sob a lei” (Gl 5.18). Na epístola dos hebreus o escritor diz: “E disto nos dá testemunho também o Espírito Santo; porquanto, após ter dito: Esta é a aliança que farei com eles, depois daqueles dias, diz o Senhor; porei no seu coração as minhas leis e sobre a sua mente as inscreverei” (Hb 10.15-16).

II.    LEI DE CRISTO

“Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de Cristo” (Gl 6.2).

“No V.T., todas as vezes que o Moisés ia ter comunhão face a face com Deus, ele ficava com o rosto resplandecente, pois a glória de Deus brilhava sobre ele. Quando Moisés descia do monte e falava com o povo de Israel, seu rosto brilhava, a ponto de os israelitas não ousarem olhar para ele, por isso então, ele cobria o rosto. Contudo, enquanto falava, a glória do seu rosto ia se desvanecendo. Por quê? Por afastar-se da comunhão face a face com Deus. Se não houvesse brilho no seu rosto, provavelmente os israelita não o respeitariam, tampouco ao seu ministério. Quando ia novamente á presença de Deus, Moisés tirava o véu para que a luz da glória uma vez mais brilhasse sobre seu rosto.

Podemos dizer que o ministério do Antigo Testamento era visível e material. Entretanto, no Novo Testamento, o ministério depende da graça, que é o próprio Senhor Jesus. Já não é um ministério exterior, mas, sim, interior. Ele também sua glória, a qual é invisível, não desvanecente, e perceptível aos homens O exercício dos dons acrescenta graça e esta, por fim torna-se ministério.

A nossa fé está baseada na lei de Cristo, que representa a graça de Deus em favor do homem caído, garantindo a nossa salvação. As leis e as cerimônias do Antigo Testamento, não foram capazes de salvar ninguém, conforme está escrito em At 15.11 “Mas cremos que fomos salvos pela graça do Senhor Jesus, como também aqueles o foram”.

Para a igreja de Corinto, Paulo explica dizendo: “Aos sem lei, como se eu mesmo fosse, não estando sem lei para com Deus, mas debaixo da lei de Cristo, para ganhar os que vivem fora do regime da lei” (1ª Co 9.21). Adaptar-se é imprescindível para a comunicação do evangelho. Ser diferente interiormente atrai o descrente (Rm 12.2), mas ser esquisito exteriormente o repele. O maior mandamento da lei de Cristo é o amor (2ª Co 5.14). Assim como o filho pródigo não foi obrigado pelo seu pai provar a sua mudança moral para ser aceito, pela graça, o pecador é aceito incondicionalmente, sua divida foi cancelada. O Espírito Santo é quem faz a obra de regeneração no interior do homem (Jo 3.3-5), e convence do pecado e do juízo (Jo 16.8). Paulo também afirma que nossa divida para com a lei foi fixada na cruz (Cl 2.14; Ef 2.14-16). Enquanto o exército exige pessoas sadias, Jesus Cristo não aceita senão doentes que queiram se tratar.

É difícil imaginar que o filho pródigo, uma vez reconciliado com seu pai, desejaria voltar para o lamaçal. O poder para transformar o querer do pecador faz parte integral da graça que salva. É impossível explicar o poder da graça de Deus na vida do pecador sem empregar o vocábulo “milagre” ou transformação.

No caminho de Damasco Paulo recebeu o milagre da transformação, por isso ele pôde explicar a Tito dizendo: “Não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo. Para que, sendo justificados pela graça, sejamos feitos herdeiros segundo a esperança da vida eterna” (Tt 3.5-7).

III. LEI DA FÉ


“E ser achado nele, não tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé” (Fp 3.9).

Justificação, portanto, é o ato pelo qual Ele declara justo o pecador que crê em Cristo, na base da obra redentora da cruz (Rm 3.21-22).

Na Nova Aliança somos justificados pela fé em Cristo Jesus. A fé é o firme fundamento das coisas que se esperam.

“Sendo, pois, justificado pela fé, temos paz com Deus por intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo. Por intermédio de quem obtivemos igualmente acesso, pela fé, a esta graça na qual estamos firmes; e gloriamo-nos na esperança da glória de Deus” (Rm 5.1-2). “Por qual lei? Das obras? Não; mas pela lei da fé. Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei. 29 É, porventura, Deus somente dos judeus? Não o é também dos gentios? Sim também dos gentios. Visto que Deus é um só, o qual justificará, por fé, o circunciso e, mediante a fé o incircunciso” (Rm 3.27-30).

A lei cancela a promessa de Deus, mas a fé em Jesus Cristo nos justifica perante Deus. Paulo o aposto damasceno explica: “Não foi por intermédio da lei que Abraão ou sua descendência coube a promessa de ser herdeiro do mundo, e sim mediante a fé. Pois, se os da lei é que são os herdeiros, anula-se a fé e cancela-se a promessa” (Rm 4.13-14).

Quando Deus fez o concerto com o patriarca Abraão, não existia a lei mosaica, por esta razão Paulo está dizendo que não foi mediante a lei que Deus fez a promessa a Abraão, mas por intermédio da fé. É explicito que a lei anula a nossa fé, e cancela a promessa feita ao patriarca Abraão. Se não buscarmos a justificação pela fé em Jesus estaremos, com certeza, condenados.

O povo judaico venerava Abraão como grande patriarca da sua nação. Foi a sua obediência cheia de fé à voz do Senhor que fez com que o filho da promessa, Isaque, nascesse. A Isaque nasceu Jacó (cujo nome foi mudado para Israel – Gn 32.28). A ele nasceram doze filhos, cujos descendentes tornaram-se as doze Tribos de Israel.

Paulo faz uma pergunta: Como foi Abraão justificado? Não pelas obras (os seus próprios atos de retidão), mas crendo em Deus.

1.      O Princípio da Fé e a Justificação em Cristo (Rm 3.27-5.9).

A independência da lei. A justiça de Deus independe de tudo que é humano, justiça própria e meritória.

Somos justificados pela fé em Cristo Jesus. A fé exclui a glória do homem (Rm 3.27). A justificação só pode ser conseguida por fé e mediante a fé (princípio e meio) (Rm 3.30).

“A Igreja de Cristo apregoa a justiça, segundo a justiça de Deus, que se manifestou em Cristo, o qual cumpriu toda a justiça (Rm 1.17). Por isso, Cristo se tornou da parte de Deus sabedoria, justiça, santificação e redenção (1ª Co 1.30). A misericórdia de Deus é a expressão da sua justiça (Êx 34.6-7; Sl 145.8)”.

2.      O Princípio da Fé e a lei.

A lei estabelece a justificação pela fé, pois sem fé é impossível agradar a Deus. A fé estabelece a lei, pois em Cristo cumprimos a lei.

Paulo deixa bem claro que não podemos ter duas opções. Ou cremos nas Escrituras com relação à justificação pela fé, ou estamos em incredulidade, perdidos, sem nenhuma esperança. “Mas Israel, que buscava a lei da justiça, não encontrou. Por quê? Porque não a buscaram pela fé...” (Rm 9.31-32).

“Pode-se dizer que a justificação está estreitamente relacionada com três princípios da Reforma: “sola gratia”, “sola fides” e “solo Christo”. Daí, James Montgomery Boyce a define como “um ato de Deus pelo qual ele declara os pecadores justos somente pela graça, somente por meio da , somente por causa de Cristo”. Assim, a fonte da justificação é a graça de Deus, o fundamento da justificação é a obra de Cristo e o meio da justificação é a . A é o canal através do qual a justificação é concedida ao pecador que crê; é o meio pelo qual ele toma posse das bênçãos obtidas por Cristo (como a paz com Deus, Rm 5.1). Ela não é uma boa obra, mas um dom de Deus, como Paulo ensina em Efésios 2.8-9. É o único meio de receber o que Deus fez por nós (“sola fides”), ficando excluídos todos os outros atos ou obras”.

Pr. Elias Ribas