TEOLOGIA EM FOCO

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

DISTORÇÕES DOUTRINÁRIAS PARA COM AS MULHERES

No Novo Testamento, observamos também o uso de jóias entre os judeus da época de Jesus. O anel, por exemplo, poderia muitas vezes ser uma indicação de riqueza (Tg 2.2). No caso do filho pródigo em Lc 15.22, o anel simboliza a devolução da autoridade e da posição que aquele filho havia perdido. Como no Antigo Testamento, no Novo Testamento o uso de jóias ou qualquer tipo de adereço poderia ser pecado ou não, dependendo do contexto onde estivessem inseridos.

Os perfumes e unguentos eram especialmente apreciados pelos povos do Antigo e também do Novo Testamento, por causa do clima seco e escassez de água na região em que habitavam. Na época de Jesus já se utilizava o incenso para perfumar o ambiente. Era costume quando se recebia uma visita em casa, o anfitrião ungir a cabeça do visitante com unguento (Lc 7.46)

Eu realmente acho que discutir aparência é uma grande perca de tempo, afinal você realmente acha que Deus está preocupado com sua aparência? Qual deve ser a aparência de um “crente?”

“Mas o SENHOR disse: Não se impressione com a aparência nem com a altura deste homem. Eu o rejeitei porque não julgo como as pessoas julgam. Elas olham para a aparência, mas eu vejo o coração” (1º Samuel 16.7 NTLH).

Qualquer pessoa que tem pelo menos um pouco de conhecimento sobre a Palavra de Deus sabe que Deus não vê a aparência.

Questões que envolvem a indumentária feminina são bastante recorrentes no meio evangélico. Em geral, a discussão dá-se no campo dos “usos e costumes” adotados por algumas denominações. Em relação ao uso de jóias (brincos, colares e afins) não seria diferente. Embora haja uma tendência à liberalização desse tipo de regra em uma parte das igrejas consideradas conservadoras, ainda há correntes que preferem manter a proibição do uso de adornos entre as mulheres evangélicas.

Neste assunto, tentaremos estabelecer que Paulo e Pedro não estavam proibindo o uso de adornos pelas mulheres, mas que, ao contrário, eles estavam contrastando o legítimo adorno externo com algo bem mais valioso – o adorno interno. Verificaremos de forma resumida e geral o que a igreja tem ensinado a respeito disto durante os dois milênios que se passaram. Examinaremos os versos nos seus contextos histórico, bíblico, teológico e textual. Ao mesmo tempo, procuraremos conhecer um pouco melhor tanto as intenções dos apóstolos quanto a natureza das mulheres da época, para podermos nos aproximar mais da sua realidade e então compará-la à nossa situação atual.

I.        O ENSINAMENTO PARA AS MULHERES SEGUNDO PAULO

“Da mesma sorte, que as mulheres, em traje decente, se ataviem com modéstia e bom senso, não com cabeleira frisada e com ouro, ou pérola, ou vestidos dispendioso, porém com obras (“como é próprio ás mulheres que professam ser piedosas”)” (1ª Tm 2.9-10).

Para aqueles que adotam a primeira leitura, não há o que discutir; Paulo proíbe e está fechada a questão.


No entanto, devemos ser justo com os relatos em que o apóstolo dos gentios:

1)      Anuncia que os verdadeiros salvos não são os que guardam a lei “pois se os da lei é que são os herdeiros, anula-se a fé e cancela-se a promessa” (Rm 4.14).

2)      Protesta contra os falsos irmãos “que se entremetem com o fim de espreitar a nossa liberdade que temos em Cristo Jesus, e reduzir a escravidão” (Gl 2.4).

3)      Não aceita que a vida cristã seja reduzida a um sistema de “não manuseeis isto, não proves aquilo, não aquilo outro, segundo os preceitos e doutrinas dos homens” (Cl 2.21-22).

[...] A palavra ataviem no grego é kosmeo que significa: “colocar em ordem, organizar, tornar pronto, preparar ornamentar, adorar, embelezar com honra, ganhar honra.

Paulo quando diz: “...que as mulheres adornem-se com trajes de adorno com modéstia e bom senso…”, É claro, que o apóstolo não condena o desejo da parte de moças e mulheres – um desejo criado nas suas almas por seu Criador – de se adornarem, de usarem de ‘bom gosto’ [William Hendriksen, I-II Timothy and Titus (Grand Rapids: Baker, 1972), 105-106].

Ele não proibindo certos tipos de trajes. O apóstolo busca, tão somente, mostrar às mulheres que a verdadeira beleza não pode ficar resumida ao exterior, devendo sempre estar em companhia do crescimento espiritual. Sua condenação ali não está nos objetos de adornos, mas na extravagância, na falta de bom senso, na ausência de pudor. A idéia dominante do texto inteiro é de bom gosto, sensibilidade, em contraste com os excessos e a falsidade. Quando os homens e mulheres vivem para mostrar as roupas, alguma coisa está errada. O centro da nossa vida é Cristo e não nós.

Para Russel Sheed, comentarista da Bíblia Vida Nova, “mulheres em traje descente – traje (gr katastole), refere-se ao comportamento em geral e não somente às vestes. Decente (gr. kosmios), tem o efeito de “em ordem”. A idéia dominante da frase inteira é de bom gosto, sensibilidade e simplicidade, em contraste com os excessos e a falsidade.

[...] É necessário ler as ordens específicas de Paulo, tendo em mente sua situação cultural. Ademais, deve saber distinguir entre aquilo que é mandamento de Deus e aquele parecer de Paulo para aquela situação da sociedade sobre os princípios de Deus.

Quando lemos 1ª Tessalonicenses 5.26: “Saudai a todos os irmãos com ósculo santo”, não devemos entender que essa ordem deve ser obedecida ao pé da letra, pois em algumas culturas homem beijar homem é indecoroso, enquanto que outras, como na Rússia, o ósculo entre pessoas do mesmo sexo é perfeitamente aceitável. Quando Paulo manda beijar todos os irmãos, é preciso que entenda-se o contexto histórico sem deixar de lado o principio universal que o apóstolo quis ensinar: (acima, portanto, de qualquer compreensão cultural do que significa feto, ou seja, que devemos tratar-nos afetuosamente).

Igualmente, seria absurdo ser forçado a admitir que o texto de 1ª Timóteo 4.8 é também uma proibição: “pois o exercício físico para pouco é proveitoso, mas a piedade que agora tudo é proveitosa, porque tem a promessa da vida que agora é e da há de ser”.

Obviamente, há neste texto não uma proibição, mas uma chamada a que se reflita sobre valores e prioridade. Muitos usam este texto até para proibir alguém de fazer uma caminhada dizendo que é uma vaidade cuidar do corpo físico. Mas, a medicina ensina que uma caminha de meia hora três vezes por semana diminuiu o colesterol, enfarte, diabete, pressão, depressão etc. Agora em uma sociedade obcecada pelo culto ao corpo, e sem Deus na vida, deve-se chamar atenção para o fato de que a modelação física, através de extenuante exercício, não traz em si o valor sublime do crescimento espiritual.

Expor um texto como este para proibir e determinar quais os tipos de roupas e adornos que devem ser usados, ou proibir o cristão fazer uma caminhada para cuidar de sua saúde, é tão errado quanto achar que Paulo está combatendo o casamento quando pergunta: “Estás casada? Não procures separar-te. Estás livre de mulher? Não procures casamento” (1ª Co 7.27). A resposta para esta frase deve ser compreendida no contexto ministerial naqueles dias em que as viagens demoravam meses inteiros; uma pessoa casada certamente teria dificuldades em administrar um casamento com tantas ausências. O casamento, neste contexto, limitaria o potencial de quem desejasse dar-se inteiramente ao ministério e, de igual modo, prejudicaria a vida conjugal de quem por ela optasse.

Para entendermos qual o pensamento de Paulo quando escreveu suas cartas, necessitamos lembrar que ele não desejava acrescentar mais mandamentos ao já penoso sistema farisaico de “faze e não faças” [Gondim. P.87-89].

“Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Permanecei, pois firmes e não vos submeteis de novo a jugo de escravidão” (Gl 5.1)”.

Quantos dos pastores que acatam os adornos femininos nos cultos podem dar uma explicação clara sobre essa atitude às suas igrejas? Quantos de nós têm certeza absoluta daquilo que estamos “aprovando,” implicitamente, pelo uso? Ou estamos abrigando “dúvidas” e ainda assim procedendo por causa de comodidade ou vaidade? A Bíblia é clara quando diz que a falta de certeza sobre o nosso comportamento indica que estamos pecando, embora estejamos fazendo algo que talvez não seja pecaminoso em si (Rm 14.12, 22-23).

II.     O ENSINAMENTO PARA AS MULHERES SEGUNDO PEDRO

“Mulheres, sede vós, igualmente, submissas a vossos próprios maridos, para que, se alguns deles ainda não obedecendo à Palavra, sejam ganhos, sem palavra alguma, por meio do procedimento de suas esposas, ao observarem o vosso honesto comportamento cheio de temor. Não seja o adorno das esposas o que é exterior, como frisado de cabelos, adereços de ouro, aparato de vestuário; seja, porém, o homem interior e tranqüilo, que é de grande valor diante de Deus”, (1ª Pe 3.1-4).

No contexto de Pedro ele ensina as irmãs a conquistarem seus maridos, não devendo usar apenas a beleza exterior, mas principalmente a interior. Ele não estabelece um padrão de roupa para as mulheres, mas sim um padrão de atitudes e de mentalidade.

Os fariseus de hoje dão ênfase ao o exemplo esquecendo-se da verdadeira doutrina. Pedro aqui não está proibindo o adorno, mas ressaltando que a principal beleza deve ser a interior. Todavia muitos líderes detêm-se apenas no exemplo do verso 3, mas esquecem-se do verso 4 que é o principal ensinamento daqueles que querem herdar a salvação que é a doutrina do novo nascimento, necessário para entrar no Reino de Deus (Jo 3.3).

[....] No contexto em que havia muitas mulheres cujos maridos não eram crentes, Pedro ensina que a melhor arma, para convertê-los, não seria os adornos e nem a beleza exterior, mas simplesmente, um procedimento digno da fé que aquelas irmãs podiam dar aos seus maridos. E, desta forma, singela e amorosa elas assim poderiam ganhá-los para Cristo. Novamente a ênfase não repousa sobre a indumentária, mas sobre a beleza exterior como exemplo aos seus esposos.

Não há condenação total de adornos aqui; a ênfase é que a ornamentação externa não deve prevalecer à interna. Alguns vão a extremos como querer condenar anéis, pulseiras e ornamentos. Pedro, porém, não quis dizer aqui que é pecado, apenas não podem ser a maior razão de viver das mulheres. Porém, as mulheres devem saber traçar a linha entre modéstia e exagero, no quis diz respeito ao que é abordada pelo presente versículo [Gondim P. 90].

Quando Pedro usa no texto: “não seja no uso de jóias, mas o interior da pessoa”, etc. isso equivale também para aqueles que tem mulher descrente: “não seja o terno e a gravata o enfeite, mas o homem interior”. Não seja/não é: “Não pode”. Mesmo em vários textos com a palavra “não” ainda o sentido é apenas para destacar o que é mais importante. Veja apenas um exemplo, em João 6.27 “Trabalhai não pela comida que perece”. Este “não é claro que revela apenas uma prioridade, quanto mais o texto de 1ª Pedro 3.3. que diz apenas “não seja”. Se o colocar no pescoço de uma mulher, ou uma pulseirinha de ouro na mão, for considerado pecado, então a gravata é vaidade e pecado também. Qual a utilidade da gravata, senão de enfeite, componente da vestimenta social masculina, convencionado pela sociedade? Como pode um enfeite ou um adorno, usando na mesma parte do corpo, que também é parte integrante da vestimenta social da mulher, tendo a mesma finalidade da gravata, não significa vaidade, mas o colar sim?

A verdade sobre tudo isso é que o judaísmo, altamente machista, vem resistindo ao tempo. Haja vista o próprio apóstolo Paulo sustentando, no início do cristianismo, certas tradições rabinas, quando fala em 1ª Co 14.35, que as mulheres devem estar caladas na Igreja, porque só para a mulher é indecente falar, mas para o homem não é indecente. A mulher era um ser de segunda classe e continua sendo assim considerada ainda hoje.

Para a mulher é vaidade, mas para o homem não; é natural ele é o cabeça. Será que podemos chamar isto de usos e costumes?

[...] A verdadeira doutrina bíblica não consiste em tentar vestir-nos como nos dias de Jesus. E não conseguiríamos nunca, nem em estipularmos uma espécie de “moda evangélica”, porque ficaríamos no ridículo. Devemos buscar, isto sim, um padrão evangélico de modéstia, bom senso e acima de tudo moderação. Por isso que Paulo diz: “Porque Deus não nos tem dado espírito de covardia, mas de poder, de amor e de moderação” (2ª Tm 1.7)” [Gondim. P. 90].

A Bíblia instrui os cristãos, especialmente as mulheres, que se vistam em “traje decente” (1ª Tm 2.9), pois o Senhor preocupa-se com isto, conforme vemos desde o início da Palavra – “Deus os vestiu” (cobriu, Gênesis 3.21). A Bíblia estabelece a simplicidade e a pureza como padrão para o que é exterior (Mt 6.28-30; 2ª Co 11.3; 1ª Tm 2.9-10; 1ª Pe 3.3-5).

Os valores morais (modéstia e bom senso) devem sobressair-se acima dos enfeites exteriores (1ª Tm 2.9-10; 1ª Pe 3.3-5). Não encontramos nem um versículo na Bíblia que proíba o cristão de usar uma jóia. Mas, também entendo por outro lado que qualquer cristão que usar jóias em demasia e com orgulho comete o pecado.

Alguns mestres têm uma cosmo visão distorcida, entendem que a mulher desleixada é santa, só porque preocupa-se com seu aspecto interior. A mulher crente deve cuidar bem de si, agradar o marido e a Deus. É claro que a mulher crente não deve cair em nenhum dos extremos: o desleixo ou o adorno sem Cristo. Não é porque somos cristãos que vamos deixar o cuidado com o corpo. Devemos cuidar do interior e também do exterior, pois o corpo é o templo do Espírito Santo.

Quando estamos verdadeiramente em Cristo, aprendemos a conhecer a mente de Cristo e a aparência deixa de ser algo essencial, mas sim o coração. As pessoas que se preocupam demasiadamente com aparência, são pessoas inseguras e imaturas quanto à sua identidade e precisam sempre de aprovação dos outros para se sentirem bem.

A mulher que tem certeza do amor de Deus na sua vida não vai se sentir incomodada por estar na presença de outras pessoas usando algum tipo de adorno. Se ela verdadeiramente tem a mente de Cristo está preocupada em fazer algo que possa abençoar e não julgar pela aparência. Isso só compete a Deus e mais ninguém. 

III.  ANALISANDO O ENSINO SEGUNDO PAULO E PEDRO

A proibição categórica contra os enfeites femininos não condiz com qualquer outro ensino registrado dos dois apóstolos. Em nenhum outro lugar, Paulo e Pedro proibiram ou exigiram qualquer ação ou atitude que não fosse ligada especificamente à ordem da criação ou à lei moral de Deus. Na mesma carta a Timóteo (4.1-5), Paulo já alertou contra aqueles que “proíbem o casamento, exigem abstinência de alimentos, que Deus criou para serem recebidos, com ações de graça, pelos fiéis e por quantos conhecem plenamente a verdade; pois tudo que Deus criou é bom, e, recebido com ações de graça, nada é recusável, porque pela palavra de Deus, e pela oração, é santificado”. Chegou a dizer que as pessoas que ensinam a prática do ascetismo terão apostatado da fé, por terem obedecido “a espíritos enganadores e a ensinos de demônios” (v.1).

[....] O perigo do ascetismo e legalismo. Sob a orientação do Espírito (o Espírito afirma expressamente, 1ª Tm 4.1), Paulo estava preparando os novos crentes para não perderem-se num novo legalismo. Tanto os homens quanto as mulheres teriam que aprender a preocupar-se primariamente com o espírito da lei – a lei do amor a Deus e ao próximo. Ele empreendeu uma campanha tremenda contra o legalismo dos judaizantes e contra aqueles que pretendiam introduzir ou impor o ascetismo (a auto-negação) na nova fé cristã. Romanos 14 ilustra muito bem a sua atitude. Falando sobre a questão de comidas oferecidas aos ídolos e da observação de dias, Paulo disse: “Eu estou persuadido no Senhor Jesus, que nenhuma coisa é de si mesma impura, salvo para aquele que assim a considera; para esse é impura…. Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (vvs.14, 17). Enquanto isso, no Concílio de Jerusalém, Pedro também lutou contra o legalismo judaico (At 15.7, 10). [Portela. O “Adorno” da Mulher Cristã: proibição ou privilégio?  Disponível: http://solascriptura-tt.org/VidaDosCrentes/Comigo/AdornoMulherCrista-Elizabeth.htm - acesso dia 16/01/2012].

Concluímos que Paulo e Pedro não tinham a mínima intenção de fazer com que as mulheres se abstivessem do embelezamento pessoal, ou que andassem fora da moda, mas que não explicam como então ler o texto sem ignorá-lo. Ele escreve: “Pedro não diz que a mulher deve se abster dos adornos. Ele não proíbe o uso de cosméticos, nem o uso de trajes atraentes. A ênfase de Pedro não é na proibição mas num senso apropriado de valores”. Paulo deixa um espaço aberto para os adornos externos quando traduz o início de 1ª Timóteo 2.9 “...que as mulheres se adornem com trajes de adorno com modéstia e bom senso…”.

Será que é possível uma mulher usar adornos externos ou um pastor temente a Deus permitir que as senhoras e moças da sua igreja se enfeitem sem ir de encontro às duas passagens bíblicas citadas para proibir o uso de todos ou certos adornos? Elas parecem ser tão claras e específicas!

Pr. Elias Ribas
Igreja Assembléia de Deus 
Blumenau SC.